O TRABALHO É DOMINAÇÃO PATRIARCAL


A humanidade teve de se submeter a provações terríveis até que surgisse o eu, o carácter idêntico, orientado para fins e masculino, do ser humano; e é ainda alguma coisa desse processo que se repete na infância de cada um.

Max Horkheimer e Theodor W. Adorno

Dialéctica do Esclarecimento, 1944.

Mesmo que a lógica do trabalho e da sua metamorfose em matéria-dinheiro pressione nesse sentido, nem todos os domínios da sociedade, nem todas as actividades efectivamente necessárias se deixam comprimir nesta esfera do tempo abstracto. Por isso, em conjunto com a esfera «separada» do trabalho, e até certo ponto como seu reverso, surgiu também a esfera do lar, da família e da intimidade.

Nesse domínio, definido como «feminino», cabem as muitas e repetitivas actividades da vida do dia-a-dia, que quando muito só excepcionalmente podem ser transformadas em dinheiro: desde limpar a casa até cozinhar, passando pela educação dos filhos e pelo cuidado dos idosos, até ao «trabalho do amor» da típica dona de casa ideal, que retempera o seu marido trabalhador, quando chega esgotado a casa, e lhe «recarrega as energias» afectivas. A esfera da intimidade, enquanto reverso do trabalho, é portanto declarada pela ideologia burguesa da família como esfera da «vida própria» – embora, na realidade, seja a maior parte das vezes apenas um inferno na intimidade. De facto, não se trata da esfera de uma vida melhor e verdadeira, mas de uma forma igualmente limitada e reduzida da existência, que simplesmente se apresenta afectada pelo sinal contrário. Esta esfera é ela própria um produto do trabalho, dele separada, é certo, mas na realidade só existente na relação com ele. A sociedade do trabalho nunca teria podido funcionar sem esse espaço social segregado, que é o das formas de actividade «femininas». Ele é o pressuposto tácito de uma tal sociedade e, simultaneamente, o seu resultado específico.

O mesmo é válido também para os estereótipos sexuais, que foram sendo generalizados no decurso do desenvolvimento do sistema de produção de mercadorias. Não é um simples acaso o facto de a imagem da mulher como um ser submetido aos impulsos da natureza, à irracionalidade e às emoções, se ter tornado um preconceito generalizado precisamente em conjunto com a imagem do homem de trabalho, criador de cultura, racional e com domínio sobre si. E também não é um acaso que a autodomesticação do homem branco para as exigências do trabalho e da respectiva administração estatal dos indivíduos tenha coincidido com séculos de feroz «caça às bruxas». E também a apropriação do mundo pelas ciências naturais, cujo início ocorre em simultâneo com esses factos, foi, na sua raiz, contaminada pela finalidade autotélica da sociedade do trabalho e pela sua atribuição de papéis sociais em função do sexo. Assim, o homem branco, para poder funcionar sem atritos, expulsou de si todos os sentimentos e necessidades emocionais, que, no reino do trabalho, só representam factores de perturbação.

No século XX, e em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram sendo introduzidas de forma crescente no mundo do trabalho. Mas o resultado foi apenas o surgimento de uma consciência feminina esquizóide. Pois, por um lado, a introdução das mulheres na esfera do trabalho não podia trazer uma libertação, mas apenas a mesma submissão ao ídolo trabalho, idêntica à dos homens. E, por outro lado, mantendo-se intocada a estrutura da «dissociação», também a esfera das actividades definidas como «femininas» permaneceu fora do âmbito oficial do trabalho. As mulheres foram assim submetidas a uma dupla carga e expostas a imperativos sociais totalmente contraditórios. No domínio do trabalho ficaram até hoje esmagadoramente relegadas para posições mal pagas e subalternas.

E não serão decerto as reivindicações conformes ao sistema, a luta por quotas destinadas às mulheres ou por igualdade de oportunidades, a mudarem seja o que for. A deplorável visão burguesa de uma «conciliação do trabalho com a família» deixa intocada a separação das esferas do sistema de produção de mercadorias e, com ela, a estrutura de «dissociação» sexual. Para a maioria das mulheres, tal perspectiva é simplesmente invivível e, para uma minoria de mulheres «mais bem pagas», transforma-se num posicionamento pérfido, fazendo delas vencedoras no âmbito do apartheid social, exactamente na medida em que podem delegar a casa e o cuidado dos filhos em empregadas mal pagas (e «naturalmente» do sexo feminino).

Na sociedade global, a sacralizada esfera burguesa da chamada vida privada e da família é, na verdade, cada vez mais esvaziada e degradada, porque a usurpação por parte da sociedade do trabalho exige a pessoa toda, total sacrifício, total mobilidade e completa disponibilidade de tempo. O patriarcado não é abolido; apenas se torna mais selvagem na crise inconfessada da sociedade do trabalho. Na mesma medida em que o sistema de produção de mercadorias entra em colapso, as mulheres vão-se tornando responsáveis pela sobrevivência, em todos os planos, enquanto o mundo «masculino» prolonga, em simulação, as categorias da sociedade do trabalho.


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